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E. S. Bravo Filho et al.: Melocactus no estado de Sergipe (Brasil) e sua conservação
Melocactus (Cactaceae) no estado de Sergipe (Brasil)
e aspectos de sua conservação
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Resumo O gênero Melocactus da família Cactaceae, subfamília Cactoideae é composto
por 38 espécies distribdas no Brasil, América Central, Caribe e nos Andes, sendo que no
Brasil ocorre a maior diversidade mundial deste gênero (23 espécies). No estado de Sergipe,
o ecossistema Caatinga ocupa quase 50% de seu terririo, vegetação, onde ocorre o maior
número de espécies do gênero Melocactus no Brasil. Este estudo teve por objetivo fazer um
levantamento florístico do gênero Melocactus no estado de Sergipe e analisar aspectos de
sua conservação. Os resultados foram obtidos através de levantamento na base de dados do
herbário (ASE), SpeciesLink e coletas de campo, onde foram registradas coordenadas geográ-
ficas e altitude. Espécimes em fase reprodutiva, foram coletados para registro e identificação
no herrio (ASE). Foi identificado o domínio fitogeográfico das escies nas macrorregiões do
estado, o qual possibilitou o registro da ocorrência de cinco espécies deste gênero, e destas,
uma nova (Melocactus sergipensis) a qual encontra-se criticamente ameaçado de extinção.
Palavras-chave: Caba-de-frade; Conservação; Diversidade local; Fitogeografia.
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Abstract The genus Melocactus of the family Cactaceae, subfamily Cactoideae is com-
posed of 38 species distributed in Brazil, Central America, the Caribbean and in the Andes,
and in Brazil the greatest world diversity of this genus (23 species) occurs. In the state of
Sergipe, the Caatinga ecosystem occupies almost 50% of its territory, vegetation, where the
largest number of species of the genus Melocactus occurs in Brazil. This study aimed to make
a floristic survey of the genus Melocactus in the state of Sergipe and to analyze aspects of
its conservation. The results were obtained through a survey in the herbarium database (ASE),
SpeciesLink and field collections, where geographic coordinates and altitude were recorded.
Specimens in the reproductive phase were collected for registration and identification in the
herbarium (ASE). The phytogeographical domain of the species was identified in the macro-
regions of the state, which made it possible to record the occurrence of five species of this
genus, and a new one (Melocactus sergipensis), which is critically endangered.
Key words: Turks cap cactus, Conservation, Local Diversity, Phytogeography.
Bravo Filho, Eronides S.
1
*
; Marlucia, C. Santana
2
; Paulo, A. A. Santos
2
;
Adauto, S. Ribeiro
3
1
Universidade Federal de Sergipe UFS, Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Av. Marechal
Rondon s/n, C.E.P. 49.100-000, São Cristóvão-Sergipe, Brasil.
2
Universidade Federal de Sergipe UFS, Departamento de Biologia. Av. Marechal Rondon s/n, C.E.P.
49.100-000, São Cristóvão-Sergipe, Brasil.
3
Universidade Federal de Sergipe UFS, Departamento de Ecologia. Av. Marechal Rondon s/n, C.E.P.
49.100-000, São Cristóvão-Sergipe, Brasil.
* Autor para contato: esbravof@gmail.com
ä Ref. bibliográfica: Bravo Filho, E. S., Marlucia, C. S., Paulo, A. A. S., Adauto, S. R. (2018). Melocactus
(Cactaceae) no estado de Sergipe (Brasil) e aspectos de sua conservação. Lilloa 55 (1): 16-25.
ä Recibido: 19/02/18 Aceptado: 27/04/18
ä URL de la revista: http://lilloa.lillo.org.ar
ä Algunos derechos reservados. Esta obra está bajo una Licencia
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4.0 Internacional.
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Melocactus (Cactaceae) in the state of Sergipe (Brazil) and
aspects of its conservation
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Lilloa 55 (1): 1625, 8 de junio de 2018
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INTRODUÇÃO
O gênero Melocactus Link & Otto perten-
ce à família Cactaceae, subfamília Cactoide-
ae, é composto por 38 espécies, cujo centro
mundial de diversidade é o Nordeste do Bra-
sil (Correia, Nascimento, Gomes Filho, Lima,
Almeida, 2018). Sua distribuição é ampla,
ocorrendo desde a América Central, México,
Caribe, Andes, e no Brasil ocorre no Norte
(estados do Amazonas e Roraima), Sudeste
(estados do Espirito Santo, Minas Gerais e
Rio de Janeiro) e em todos estados do Nor-
deste, com exceção do Maranhão (Zappi,
Taylor, Santos, Larocca, 2015; International
Union for Conservation of Nature [IUCN]
(2016); Bravo Filho, Santana, Santos, Ri-
beiro, 2018).
No Brasil ocorrem 23 espécies do gênero
Melocactus, sendo 21 destas endêmicas, nú-
meros que faz do Brasil o detentor do maior
número de espécies nativas deste táxon no
mundo. As escies deste gênero crescem
em biomas e altitudes diversificados, com
maior ocorrência na Caatinga, Cerrado e
Mata Atlântica (Resende, Lima-Brito, San-
tana, 2010; Zappi et al., 2015).
Os Melocactus são conhecidos popular-
mente como «cabeça-de-frade, coroa-de-fra-
de, coroinha e tamborete-de-sogra» e fazem
parte da cultura do Nordeste brasileiro, uma
vez que, encontram-se entre as plantas mais
utilizadas em uma ampla diversidade de usos
(ornamental, místico, medicinal, veterinário,
na fabricação de produtos diversos, na produ-
ção de alimentos, como forragem para rumi-
nantes e são fonte de inspiração para a criação
de cordéis, poesias, lendas e canções) (Bravo
Filho, 2014; Lucena et al., 2015; Silva, 2015;
Bravo Filho, et al., 2018).
Apesar do extrativismo, do alto grau de
endemismo e da elevada taxa de degradação
dos biomas de ocorrência destas espécies no
Brasil, não se observa cultivos comercial com
o objetivo de suprir os usos, os escimes
são removidos inteiros de seu ambiente na-
tural sem considera o seu ritmo de resili-
ência (Plano Nacional Para conservação das
Cactaceae [PAN] (2011); Silva, Prata, Sou-
to, Mello, 2013; Livro Vermelho da Flora do
Brasil [LVFB] (2013); Bárbara et al., 2015;
Menezes e Ribeiro-Silva, 2015).
Desta forma, fazem-se necessários es-
tudos mais aprofundados sobre a biologia
reprodutiva e populacional deste gênero.
Objetivando subsidiar a crião de políti-
cas públicas de conservação deste grupo de
plantas que, atualmente, possui nove espé-
cies nativas incluídas na Lista das Espécies
com Risco de Extinção do Livro Vermelho da
Flora do Brasil, número que corresponde a
40,9% da biodiversidade nativa de Melocac-
tus no país e 24,32% da diversidade mundial
(LVFB, 2013).
O Estado de Sergipe possui ecossistema
pico de ocorrência da família Cactaceae,
visto apresentar clima semrido e seco,
com formação vegetal composta por dunas
costeiras, Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado
e áreas rochosas (Santos e Andrade, 1998;
Secretaria de Estado do Meio Ambiente e
dos Recursos dricos [SEMARH], 2012).
Contudo, observa-se que vários municípios
sergipanos que apresentam ecossistemas
característicos de ocorrência do gênero Me-
locactus não possuem registro destas espé-
cies no Herrio da Universidade Federal
de Sergipe-ASE ou outros meios como o
SpeciesLink, Ministério do Meio Ambiente
e na Lista de Espécie da Flora do Brasil. Até
2014, no Herbário-ASE, havia o registro de
quatro espécies (Melocactus violaceus Pfeiff,
Melocactus violaceus subsp. margaritaceus
N.P. Taylor, Melocactus zehntneri (Britton &
Rose) Luetzelb. e Melocactus ernestii Vaupel
subsp. ernestii) distribuídas em oito municí-
pios (Herbário da Universidade Federal de
Sergipe [ASE], 2015; Bravo Filho, 2014). O
objetivo dessa pesquisa foi realizado um le-
vantamento florístico do gênero Melocactus
no estado de Sergipe e avaliar o status de
conservação.
MATERIAL E MÉTODOS
As coletas foram realizadas em 19 mu-
nicípios do estado de Sergipe: Aracaju, Am-
paro de São Francisco, Barra dos Coqueiros,
Canhoba, Estância, Gararu, Itabaiana, Itapo-
ranga D’Ajuda, Japaratuba, Japoatã, Macam-
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bira, Monte Alegre, Neópolis, Nossa Senhora
da Glória, Pacatuba, Pirambu, Porto da Fo-
lha, Poço Verde e Simão Dias, no período
de setembro de 2013 a dezembro de 2016.
Exemplares das espécies de Melocactus em
fase reprodutiva foram coletados e levados
ao herbário-ASE da Universidade Federal de
Sergipe (UFS), para herborização, preparo
das exsicatas e posteriormente identificação,
catalogação e registro das espécies. O regis-
tro das coordenadas geográficas para mon-
tagem do mapa, foi obtido com GPS marca
NBA100 e modelo 65-Channel.
Essas localidades foram definidas através
dos seguintes critérios: a) relato de comer-
ciantes de cactáceas em feiras livre; b) relato
de pessoas da comunidade; c) excursões aos
locais que apresentam ecossistemas típicos
da ocorrência das escies de Melocactus,
contudo sem registro de coletas no Herbá-
rio-ASE da UFS.
As pesquisas realizadas nas cidades de
Canin de São Francisco, Areia Branca,
Pacatuba, Po Redondo, Santo Amaro das
Brotas e Tobias Barreto, limitaram-se a uma
revisão nos registros do Herbário-ASE da
Universidade Federal de Sergipe.
C
oleta e transporte do material
botâniCo
A coleta do material botânico ocorreu
com auxílio de luvas de couro e espátula de
ferro. Após a remoção, os espécimes foram
colocados em sacos plásticos com a identifi-
cação da espécie. Cada espécie coletada foi
previamente identificada com uma etiqueta
contendo o número da coleta. A partir desta
numeração foi montado um banco de dados
em um caderno de campo contendo informa-
ções sob o local da coleta, tipo de vegetação,
tipo de solo, altitude, coordenadas geográfi-
cas e características da espécie como altura,
diâmetro e cor do caule, cor dos frutos, das
flores e do cefálio.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As coletas realizadas no presente estudo
ampliaram o número e a distribuição geográ-
fica das espécies de Melocactus no Estado,
pois proporcionaram em junho de 2014 a
descoberta de uma nova espécie, a qual foi
descrita pelo Dr. Nigel Paul Taylor (Singa-
pore Botanic Garden), especialista do gêne-
ro. Em homenagem ao estado de Sergipe,
a nova espécie foi nomeada de Melocactus
sergipensis N.P. Taylor & M.V. Meiado (Taylor,
Meiado, Bravo Filho, Zappi, 2014).
Esta nova escie, devido ao número
extremamente reduzido de indivíduos em
sua população (com aproximadamente 100
espécimes em fase reprodutiva) e por estar
em um ambiente fortemente antropizado
(fragmento de vegetação rodeado por plan-
tações de milho e isolado entre estradas),
encontra-se criticamente ameaçada de extin-
ção (CR) (Taylor et al., 2014). O Melocactus
sergipensis (Fig. 1) é atualmente a única es-
pécie dafamília Cactaceae endêmico do esta-
do de Sergipe, bem como a única ocorrente
no estado com statuscriticamente ameaçada
de extinção (CR). Desta forma, essa espécie
necessita de atenção urgente do poder públi-
co para garantir a conservação e evitar a sua
extinção (Taylor et al., 2014; Convention on
International Trade in Endangered Species of
Wild Fauna and Flora [CITES], 2016).
Com a inclusão da nova espécie no herbá-
rio da Universidade Federal de Sergipe (ASE
31075 E.S. Bravo Filho 15), foi possível
identificar, cinco espécies do gênero Melo-
cactus ocorrentes no estado, distribuídas em
21 munipios (Fig. 2), além de ratificar e
ampliar algumas informações contidas no
Herbário ASE da UFS, SpeciesLink e na Lista
de Espécie da Flora do Brasil.
Em relação às informões contidas na
Lista de Espécies da Flora do Brasil (2014),
a qual citava a ocorrência de quatro espécies
de Melocactus (M. ernestii subsp. ernestii, M.
violaceus Pfeiff., M. violaceus subsp. margari-
taceus eM. zehntneri), foi possível ratificar a
ocorrência destas espécies (Fig. 3), além de
inserir mais 12 municípios sergipanos no rol
dos citados no Herbário da Universidade
Federal de Sergipe [ASE]. (2015); Species-
Link (2014) e na Lista de Espécie da Flora
do Brasil (2014).
Através da Fig. 2, observa-se a ocorrência
do gênero Melocactus em 21 municípios de